quarta-feira, 4 de setembro de 2013

CORRIDA NA INFÂNCIA by Revista Runner's World Brasil

Brincar de correr

A corrida faz parte da infância. Faça dessa atividade um ingresso para uma vida saudável e uma diversão para toda a família

Por Sam Murphy e Patricia Julianelli 

Para fugir dos pais, do irmão mais velho, no esconde-esconde, no pega-ladrão. Correr é natural para as crianças. Se nós incluímos o esporte na rotina para fugir do sedentarismo e ganhar pique, para eles é uma grande brincadeira, é farra, é puro instinto. Pode ser mais. Pode ser o pontapé para uma adolescência e uma vida adulta ativa, saudável e bem longe de consultórios médicos e estatísticas assombrosas. Mas qual é a melhor maneira de estimular as crianças a praticarem um esporte sem tirar delas a simples alegria de correr?
Simples: jamais tirar o foco da diversão. “Quando as crianças são muito pequenas, a ênfase não deve estar na competição nem em correr distâncias específicas”, diz Carol Goodrow, autora de Kids Running (em tradução livre, “Corrida para crianças”). “Não tem problema se elas começarem a correr e pararem, ou se acelerarem e diminuírem o ritmo.” Susan Love, diretora do Just Run (www.justrun.org), programa online gratuito de corrida para crianças de 5 a 12 anos, concorda. “Logo cedo, a criança deve desenvolver o conceito de que correr é divertido”, diz ela.
Só alegria
Estudos mostram que é duas vezes mais provável que adultos praticantes de atividade física tenham sido esportistas quando jovens, se comparados a adultos sedentários. Nós, corredores, podemos estimular as crianças a seguirem nossos passos. Mas não deixe seu entusiasmo tirar o melhor de você. “Pais ou treinadores precisam ficar de olho nas crianças para ver se elas estão realmente gostando de correr”, explica Chris Donald, técnico de atletismo no Reino Unido. “É preciso encontrar o equilíbrio e recuar quando necessário. Você também precisa se lembrar de que algumas crianças irão dizer que gostam da corrida porque é isso que sua mãe, pai ou treinador quer ouvir.”
As provas infantis são uma ótima maneira de apresentar os benefícios da corrida às crianças, mostrar o lado lúdico e saudável do esporte. O primeiro evento desse tipo foi promovido pelo clube de corredores Corpore, em 1994. “Essas provas devem ser uma grande festa e não uma competição”, afirma Armando Francisco, diretor-executivo da Corpore. Hoje, são dezenas pelo país, atraindo crianças dos 3 aos 14 anos, que geralmente percorrem de 50 a 800 metros e se esbaldam em atrações paralelas oferecidas pela organização, como brinquedos infláveis, ateliês e shows. A corrida em si lembra muito as provas para adultos: têm largada e chegada, kit de corredor com camiseta de prova, número de peito e medalha. Há provas só para os pequenos, as que integram os eventos para adultos e ainda uma terceira categoria, criada recentemente: provas em que criança e pai (ou mãe) correm juntos, unidos por uma fita elástica. É o caso da Corrida Cartoon, que teve sua segunda edição em São Paulo em 2012.
Nas provinhas, as crianças têm uma ideia da diversão e adrenalina de competir; mas, de novo, elas devem seguir no próprio ritmo. “Não arraste seu filho para uma corrida nem o faça participar de um evento se ele não quiser”, diz Carol Goodrow. “E, se vocês correrem juntos, você precisará reservar tempo no seu treino para ajudar e estimular seu filho.” Na Corrida Cartoon deste ano, o que mais se via eram filhos e pais cruzando a linha de chegada juntos e motivados. Novos atletas surgiam, dos 4 aos 40 anos. Mas havia exceções, especialmente nas categorias de 13 e 14 anos, em que pais (picados pelo bichinho da competitividade) praticamente guinchavam os filhos na chegada. “Se o objetivo da prova é incentivar o esporte e o convívio social, aprovo. Mas, aqui no Brasil, há uma tendência a só se valorizar a vitória. Pais e filhos devem entender que a ideia é se divertir”, afirma o médico Paulo Zogaib, especialista em medicina esportiva pela Unifesp. Uma cobrança exagerada pode até fazer a criança desistir do esporte. “Os pais devem valorizar a participação e superação individual. A comparação é o início da competição, e algumas crianças se sentem muito incomodadas e pressionadas a melhorar ou entendem uma má colocação em uma prova como uma falha. Valorize o feito do seu filho por ele mesmo”, indica Carla Di Pierro, psicóloga do esporte do COB (Comitê Olímpico Brasileiro).
Susan Love acredita que um dos motivos pelos quais o Just Run tem uma aceitação tão boa (6 000 crianças inscritas) é o fato de ele ser totalmente inclusivo e não competitivo. “Fazer as crianças manterem um diário de corrida é uma ótima maneira de integrar essa atividade ao currículo escolar”, diz Susan. Mas quilometragem e ritmo não são o foco desses diários, segundo ela. “No caso de uma criança de 5 anos, por exemplo, ele pode ter fotos do clima ou da paisagem observados durante um trote ao ar livre. O das crianças mais velhas pode ter uma redação com o tema ‘Do que eu mais gosto na corrida’.”
Colhendo benefícios
Segundo médicos da área esportiva, os treinos não deveriam ser regulares antes da fase de maturação sexual e devem ser personalizados e supervisionados por um profissional da área de educação física. Confira abaixo as recomendações da American College of Sports Medicine (Escola Americana de Medicina Desportiva). Indicações seguidas por boa parte das provas brasileiras, que geralmente vão de 50 metros (3 anos) a 800 metros (14 anos).
Entretanto, como no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma em cada três crianças entre 5 e 9 anos está com sobrepeso, essa é literalmente uma questão de peso. Os benefícios da corrida para a saúde física de crianças e adolescentes são semelhantes aos benefícios para adultos: melhora do condicionamento cardiovascular, ossos mais fortes, perfil de colesterol mais saudável, melhor controle da glicose e alcance ou manutenção de um peso adequado. Quanto mais cedo elas incluem atividade física na vida, melhor. Em um estudo feito na University of Iowa, nos Estados Unidos, crianças que realizavam atividade física de moderada a vigorosa aos 5 anos de idade tiveram menor probabilidade de desenvolver sobrepeso aos 8 e 11 anos de idade. A atividade física também ajuda a melhorar a força e flexibilidade muscular e turbina agilidade, equilíbrio e coordenação.
Na medida - Distâncias indicadas para a corrida dos pequenos

O esporte também contribui para o aprendizado. Um estudo feito pela University of Georgia, nos Estados Unidos, concluiu que os exercícios regulares podem estimular a função e o desenvolvimento cognitivos das crianças. Carol acredita que a corrida seja uma maneira valiosa de gastar energia, principalmente para crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Um estudo publicado na revista científica Paediatric Exercise Science mostrou ainda que os exercícios também ajudam as crianças a lidar melhor com a raiva.
O pisante dos pequenos
Acerte na compra do tênis de corrida do seu filho
As cartilagens e os ossos das crianças estão em formação e são mais suscetíveis a lesões, especialmente na região do calcanhar. “Tênis minimalistas, com baixo amortecimento, podem favorecer o surgimento de lesões como osteocondrites, que são inflamações de ossos e cartilagens. Para crianças, o mais indicado é um tênis com amortecimento na região do calcâneo e bom sistema antitorcional, já que esses atletas também apresentam maior instabilidade articular”, afirma o médico do esporte Gustavo Magliocca. A partir dos 14 anos, preste atenção na pisada do seu filho e pense em investir num calçado específico. Se ele sentir dor, procure um ortopedista. Confira três opções para a corrida infantil.

Dose certa
Se a criança decidir incorporar a corrida à rotina de treinos, qual é a quantidade suficiente — ou excessiva — para elas? Não há um consenso entre especialistas. “Cada criança é única. Tudo depende da idade, do desenvolvimento físico, do nível de condicionamento, do tipo de corrida e de preferências pessoais”, diz Carol. Há um ditado que se costuma usar em relação a crianças no atletismo: “Elas não são miniadultos”. Por exemplo: quando estão cansadas, as crianças mais novas param e, às vezes, sentam-se. Elas ouvem mais o corpo que qualquer criança mais velha — e certamente muito mais que os adultos. “A maioria das crianças só consegue correr distâncias curtas sem ter de fazer uma pausa. Mas, se permitirmos, elas farão o tempo de recuperação necessário, por instinto”, afirma Mike Antoniades, técnico de corrida que trabalha com crianças no Reino Unido.

O ortopedista Rogerio Teixeira, especialista em medicina esportiva pela Unifesp, não recomenda a corrida como prática regular antes dos 7 ou 8 anos de idade, “fase em que o joelho completa seu crescimento em termos de angulação”, afirma. Na verdade, os médicos indicam que se espere até a fase de maturação sexual (que varia muito e pode acontecer aos 10 ou 14 anos) para a introdução de treinos regulares, já que, antes disso, a estrutura óssea e muscular ainda está em formação. “E a criança ainda não tem concentração suficiente para um treino repetitivo e constante, fica enfadonho. Se nessa fase direcionamos a atividade para um só movimento, perdemos a chance de diversificar o padrão motor. Nesse momento, especializar seria um erro. Vai nadar, correr, pular, equilibrar-se! No fim de semana, correr uma provinha por diversão, ok, mas, durante a semana, diversifique”, afirma Zogaib.
Na assessoria esportiva MPR, de São Paulo, o treinador Fabio Ferreira dá treinos para alunos a partir de 14 anos. “Abaixo dessa idade, o ideal é que seja mais uma recreação, brincadeiras lúdicas com a corrida.” Segundo ele, somente a partir dos 14 ou 15 anos seriam indicados treinos específicos de corrida, de duas a três vezes por semana. “Mesmo nesses casos, indico que pratiquem outras modalidades em paralelo.” Especialistas alertam: treinadores e pais devem evitar sobrecarga, que pode causar lesões em ossos e cartilagens. “Qualquer dor que dure mais de uma semana tem de ser avaliada. Mesmo para adolescentes, o volume de treino não deveria ultrapassar 1 hora por dia, até quatro vezes por semana”, indica Rogerio Teixeira. A IAAF (Federação Internacional de Atletismo) recomenda que, até 14 anos, a frequência de treino não ultrapasse três vezes por semana.
Ao correr com seu filho, elogie o empenho dele e não só o resultado. “A criança precisa se sentir feliz, reconhecida pelos pais, e jamais deve ser obrigada a fazer algo ou pressionada a obter algum tempo”, afirma Carla Di Pierro. E procure dar dicas sobre a postura, sempre de forma leve e descontraída. Aproveite que as crianças têm por hábito copiar os pais e mostre que os ombros devem ficar relaxados e os braços, paralelos ao corpo. “Uma criança de menos de 15 anos normalmente leva 30-40 minutos para dominar os aspectos básicos da boa postura. Em comparação, o adulto geralmente precisa de seis treinos. Elas aprendem muito rápido”, afirma Mike.
Se a corrida for incorporada à rotina de seu filho, leve-o a um ortopedista para uma avaliação postural. Para os treinos, busque orientação de um profissional de educação física. A consultoria esportiva Rio Saúde oferece aulas para alunos a partir de 8 anos. São dois treinos semanais, de 40 minutos a 1 hora, no Bosque da Barra. “O foco é sempre a diversão, são treinos lúdicos para iniciar crianças e jovens no esporte”, diz o treinador Roberto Tadao. A partir da puberdade, torna-se ainda mais importante o acompanhamento de um treinador. “Um profissional que respeite as características individuais e metas dos alunos e que já tenha grupos para crianças e adolescentes. Assim, eles se sentirão mais à vontade e motivados”, afirma Fabio Ferreira, da MPR.

FONTE: REVISTA RUNNER'S WORLD BRASIL

Um comentário:

  1. Super Legal, minha filhinha tem 8 anos e participa dos joguinhos do município, já ganhou muitas medalhinhas e ela adora correr, as vezes tenho de brigar com ela, porque ela ri tanto que esquece de respirar, é uma figurinha a coisinha mais linda desse mundo e ela ama correr, quem sabe ela ainda vai me acompanhar em alguns km´s no futuro mas por enquanto é só pra se divertir.
    Beijos
    Bons Km´s
    Ju

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